domingo, 22 de maio de 2011

Somos o que plantaram em nós

Somos o que plantaram em nós.
Como já falava o psicanalista alemão Erik Erikson, “o problema do ser humano é a mãe...” E olha que ele tinha razão. Não é que o pai não tenha participação, mas, tem pai que é verdadeira “mãe”. Ou melhor, pai é filho de uma mãe... Até porque foi este aluno de Anna Freud que construiu sua teoria do desenvolvimento psicossocial. Estou apenas recordando algumas situações da nossa infância. Quando ele fala que “A criança adquire ou não uma segurança e confiança em relação a si próprio e em relação ao mundo que a rodeia, através da relação que tem com a mãe.” Realmente tem um imenso sentido.
         O que somos, nossos medos, inseguranças, relacionamentos que desistimos ou assumimos, situações que deixamos de enfrentar por tabus ou mesmo a dúvida de estar certo ou errado. Isso foi a nossa educação materna que nos fez decidir, desistir, esconder-se, mostrar-se, arriscar-se, enfrentar desafios, saber educar nossos filhos, escolher nossa profissão, amar o outro, ou odiar...
No segundo estágio – autonomia/dúvida e vergonha denominado por Erikson, se fizermos uma retrospectiva de nossa infância sobre o que nossa mãe fazia, sempre por amor, em nos defender e não permitir que defendêssemos a nós mesmos, resolvia os mais simples e possíveis problemas de ser resolvidos por nós, falava por nós não nos permitindo o desenvolvimento da argumentação, enfatizava que não mentíamos jamais, nos elogiava na frente de pessoas que sabíamos que era total exagero, ou seja, quantas vezes presenciamos nossos pais mentindo para nos defender.  Se  somos gordos hoje foi o estimulante de apetite que ela ingenuamente nos dava para crescermos “fortes” e mostrar a todos que éramos bem alimentados... Não estou aqui desencadeando uma revolução familiar. Mas, é uma forma de tentarmos “corrigir” ou mesmo “arrancar” em nós o que plantaram e o que estamos frutificando hoje. E então? O que fomos? E o que nos tornamos? Somos o resultado desta “agricultura” educacional que nossa mãe erigiu.
Direitos autorais (LEI Nº 9.610, DE 19 DE FEVEREIRO DE 1998.)
Ane Monteiro

Aniversário de criança

Aniversário de criança
Inicio esta postagem com uma história que sempre cito como exemplo nas minhas palestras em reuniões de pais:
 “Um casal vai ao aniversário da filha de um amigo, com sua filha de 4 anos de idade, chegando lá, acomodam-se em uma das mesas postas para os convidados. Em outro espaço da festa encontra-se um palhaço que reúne a criançada para que os pais possam aproveitar também o lado adulto da festa. A filha fica receosa em dirigir-se até o palhaço e tantas crianças que não conhece, mas, a mãe a incentiva e lhes fala que não irá sair daquele local. A hora que ela procurar, estará ali e que a filha vá se divertir com a turma de sua idade.
Em momento algum a mãe saiu do local que havia prometido a garotinha que sempre, entre uma brincadeira e outra, olhava para confirmar o que a mãe havia lhe dito. Logo, criou dessa forma o laço de segurança. Desencadeando futuramente em Autonomia. Quando a mãe precisava se ausentar, para falar com alguém, o pai permanecia na mesa e acenava para a filha que sempre lançava os olhinhos confirmadores.
Todos sabemos que nestas brincadeiras dirigidas por estes palhaços exigem competitividade,  jogos,  brincadeiras que aos vencedores entregam-se prendas. Depois de todos cantarem o “parabéns pra você”, o palhaço organiza uma fila para distribuir as caixas contendo os doces. Podemos imaginar o empurra-empurra da criançada pra receber os docinhos. E lá foi a filha do casal enfrentar a fila. Lógico que não havia apenas crianças da mesma idade,  eram variadas, mas, tratava-se de crianças. Então, a mãe agiu da mesma forma, que a filha fosse sozinha enfrentar o desafio de conseguir os doces e pode-se imaginar, crianças que querem passar a frente, aqueles que gritam a cor que quer, e lá estava ela enfrentando seu primeiro de tantos obstáculos que nós seres humanos começamos a enfrentar. Ao receber a caixinha com todas aquelas delícias retorna a mesa dos pais e mostra a vitória daquela pequena guerra pela conquista.” 
A  vida em sociedade nos coloca diante de problemas  proporcionais, em sua maioria, a medida em que crescemos, as nossas capacidades de resolução. Comparo a situação através da seguinte perspectiva  futura: a mesa que o casal se encontrava é a nossa casa, o nosso porto seguro em que podemos descansar e contar com o apoio da família ou daqueles aos quais amamos. O palhaço da festa e as brincadeiras são os desafios do nosso dia-a-dia pela sobrevivência em todos os aspectos. A fila para pegar a caixinha de doces é o desafio do emprego, a entrevista, a adrenalina da convocação, a concorrência do dia-a-dia  e  a caixinha do doce é o salário...
Tudo reflete na vida adulta e a Autonomia é um processo lento que deve ser construído desde a infância. Este é um dos episódios que ocorreu com a minha segunda filha...
Isto, não é uma cartilha de receitas prontas. São momentos que quero partilhar com pais, professores e aqueles que estão no caminho de mediar a Autonomia para seus filhos, alunos e crianças. Para que possam observar que educar é um processo minucioso de detalhes imperceptíveis àqueles que deixam para depois, momentos que jamais voltarão no tempo. Então, esta semente que chamo de Autonomia, tem de saber escolher o solo, fertilizar, regar e cuidar. Sabendo que o crescer, brotar, florir e frutificar  depende de nós...
Direitos autorais(LEI Nº 9.610, DE 19 DE FEVEREIRO DE 1998.)
Ane Monteiro

"Agricultura" educacional...

"Agricultura" educacional...
Agora que tenho percorrido outros caminhos, estou me referindo à outras leituras de mundo, das quais estou maravilhada, observo que há 20 anos atrás percorri durante 10 anos o caminho da intuição...
Graças a Deus, e a minha fé, estou colhendo os frutos. Os frutos da Autonomia das quais plantei. Afinal, colhe-se o que  planta. Não existe ditado popular mais rico em veracidade. Apesar de que, já iniciei minha colheita aos 5 anos de idade da minha primeira filha, quando ela comia de garfo e faca e cortava o bife sozinha. Minha mãe achava um absurdo, afinal, neta é sempre neta e aquela situação era um sinal de “abandono...” Mas, eu estava lá, de frente, mediando as coordenadas para a carne não pular do prato.
Foi assim, também, com a minha segunda filha. Depois desta primeira colheita, continuo o percurso “agrícola” educacional de tantas outras colheitas que nem recordo. Mas, obtive uma grande safra esse ano, a safra da Autonomia em seu ápice. Esta safra se deu com o segundo emprego da minha caçula no qual ela de estagiária de uma multinacional tornou-se aos 20 anos de idade funcionária além da responsabilidade imensa no cargo que assumiu. Como também,  a minha primogênita fora do país ingressando no mundo da concorrência e criatividade da publicidade. Ah... é uma colheita imensa de realizações de uma semente chamada Autonomia.
Observo hoje a educação de crianças que não recebem essa semente... O que os pais ingenuamente imaginavam aplicar. Observo também aqueles filhos que há 22 anos atrás também não receberam... Aguado com essas contribuições pessoais, pequenas sementes que semeio, colaborar com esse universo materno que existe em cada um de nós, pais e/ou mães neste caminho da educação familiar. Não se trata de um manual ou receita pronta. Quero apenas compartilhar momentos com os quais obtive resultados. Não existe criação perfeita porque mãe/pai erra por amar demais...
Ane Monteiro

Valores na Escola

Valores na Escola
Hoje presenciei uma cena, às 7h e 30minutos da manhã, em um dos corredores do colégio municipal, no qual trabalho como supervisora pedagógica, que me deixou irritada. Mas, calei. Às vezes o silenciar não significa omissão. Significa cansaço... Um pai escutando passivamente as ordens, em bom tom, de seu filho de 7 anos: “Vamos! Não fique aí parado! Desça e compre o meu lanche e que seja o que eu lhe pedi para comprar! Coxinha, refrigerante e chicletes! Vá! Vá! Vá! E seja rápido porque a aula vai começar!” Como lutar, ou argumentar com essa “bola de neve” que se tornou a permissividade na educação familiar? Como ir de encontro a um Estatuto que dá mais direitos aos menores que deveres? Quando chamamos a atenção para uma cena como essa, os pais ainda  relutam na frente da criança e falam, às vezes e com orgulho: “eu não posso com ele... Ele tem uma personalidade forte, ele sabe o que quer.”
Fico a imaginar como será daqui há 10 anos. Porque em meados da década de 90 já presenciávamos tais situações e eram diagnosticadas como hiperatividade. Substituíram os termos “mal educação e falta de respeito” por esse transtorno psicopedagógico. Acredito que Alicia Fernandez (psicopedagoga argentina e minha referência profissional) também sofra com tais situações em suas palestras e consultório. Porque a família perdeu o rumo. E vem perdendo cada vez que a TV monopoliza a educação familiar. Sim. Estou generalizando. Uma criança que tem acesso aos programas de TV que mostram famílias desestruturadas e falta de juízo moral, contribuindo em lançamentos de modas, estilos comportamentais e novas “tribos”, colaborando para a superlotação dos consultórios psicopedagógicos e psicológicos, para que façam o papel da família porque se ausentam, é um ultraje. Nós desta área, também temos limites de tolerância.
Possuo 22 anos em escolas da rede privada e trata-se do mesmo problema. Porque uma vez que os pais possuem uma renda significativa, a forma de tratamento é a mesma. Onde o consumismo é a palavra de ordem. Imagino, daqui há 10 anos, essa geração de crianças e adolescentes sem limites, sem respeito pelos mais velhos, sem valores, sem ética, sem bom gosto musical, sem rumo porque não sabem mais brincar, sem tradições, sem fé. Perderam a infância cedo, perderam a inocência cedo. E o pior, perderam a autonomia... Sim, porque autonomia não é soberania. É um processo futuro, no qual será uma repercussão em nosso país. Pessoas que jamais terão autonomia para guiar a própria  vida, quanto mais um cargo de liderança, que exige tantas qualidades implícitas da educação familiar, e que hoje nos faz calar diante de cenas que desconstroem a qualidade do referencial que seria o pai e a mãe.
Direitos autorais(LEI Nº 9.610, DE 19 DE FEVEREIRO DE 1998.)
Ane Monteiro